Carro pra macho
Martha Medeiros
Todo mundo sente um friozinho na barriga dentro de um Boeing, mas aterrorizante, ao menos hoje, é a estrada
Soube que o cantor Lenny Kravitz só anda de avião quando não há outra alternativa. Para realizar o show da próxima terça em Porto Alegre, chegou a pensar em vir por via terrestre, desde Buenos Aires, mas parece que reconsiderou. No entanto, pretende seguir daqui para São Paulo pela estrada.
Um friozinho na barriga todo mundo sente ao decolar, mas se negar a entrar num Boeing é uma atitude radical demais: reduz as oportunidades de vida. Muitas pessoas que necessitam viajar por razões profissionais não conseguem vencer o pânico e só se locomovem de ônibus ou carro. Perdem tempo, se cansam, mas não voam. E se o compromisso for fora do país, abrem mão. Não viajam lá em cima por dinheiro algum.
Fobia é doença, portanto, respeito esta dificuldade que muitos têm. Mas eles não estão mais seguros aqui embaixo. Aterrorizante, hoje em dia, é estrada. Ainda mais quando a gente depara com anúncios como o que saiu semana passada numa revista de circulação nacional. O título: “Homem que é homem não buzina. Assusta o carro da frente”. E a foto mostrava uma caminhonete enorme, ameaçadora – “Um carro pra macho”, dizia o slogan. No texto, pérolas como “Uma picape alta, forte, robusta, feita pra você que é homem de verdade”. Continuava: “Atrás, o espaço também é fantástico. Você vai se sentir no sofá da sua casa, principalmente se estiver em boa companhia”. Dá-lhe, don-juan. E o encerramento do texto deve ter feito os brutamontes baterem no próprio peito feito gorilas: “Prove que você não tem medo de carro grande, entre numa concessionaria e dê uma porrada na mesa”. Que meda.
Eu adoro homens de mentira, que andam em carros de tamanho normal e que, mesmo no volante de uma caminhonete, dirigem sensatamente, sem pretender matar do coração o coitado do motorista da frente. Em contrapartida, merece apenas desprezo este tal “homem de verdade”, cuja potência e robustez depende de 331 cavalos – os 330 da picape mais ele próprio.
Se eu tivesse a honra de bater um papinho com Lenny Kravitz, diria a ele pra tentar vencer essa sua resistência em viajar de avião. Umas turbulenciazinhas não matam ninguém. Ou matam muito menos do que homens de verdade a bordo de carros para macho, seja lá o que isso signifique. Voe, Kravitz, e evite cruzar com os malucos da estrada. E mostre, no palco montado no Olímpico, que uma guitarra pode tornar um homem muito mais interessante e sexy do que um automóvel.
Domingo, 13 de março de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.